Todo mundo aqui já sabe que eu sou o que se chama de "cachorreira". Não digo que sou pretetora de animais, porque acredito que ser protetora vai além de resgatar alguns cães e gatos de rua e reabilitá-los para que sejam adotados. E não tenho condições para tanto. Portanto, sou só cachorreira, e desde que comecei a fazer esse trabalho já salvei alguns animais.
Em novembro de 2008 eu voltava para casa, tarde da noite, quando vi um cachorrinho correndo pela rua, parecendo assustado. Ele veio na minha direção, mas quando tentei pega-lo, ele fugiu correndo. Tres dias depois, quando voltava do trabalho, topei na rua com esse mesmo cachorrinho, e mais uma vez não consegui pega-lo, pois ele fugiu correndo por entre os carros, muito assustado. Eu pensava nele o tempo todo quando andava pela rua, temendo que fosse atropelado antes que eu conseguisse encontra-lo de novo e resgata-lo, pois era óbvio que estava perdido. Até que no dia 20 de novembro, feriado aqui em São Paulo, Dia da Consciência Negra, tive de trabalhar. Trabalhava, nessa época, a poucos quarteirões de minha casa. Em um intervalo saí até a porta da empresa para esticar as costas, quando percebi um movimento embaixo de um carro, estacionado bem na porta. Olhei melhor e vi que era o cachorrinho que eu procurava! Consegui cerca-lo, e, com a ajuda de um rapaz que mora em frente à empresa, o peguei e trouxe para dentro da empresa. Ele gritava muito, se urinou todo no momento em que o peguei, mas examinando-o rapidamente descobri que não tinha nenhum ferimento grave. Ele não chorava de dor e sim de medo! E mais, descobri também que se tratava de uma fêmea, novinha ainda, pois tinha os dentes de leite encavalados com os dentes permanentes. Estava muito magrinha, imunda, lotada de pulgas, e exalava um cheiro horrível. De porte pequeno, calculei que ela pesava em torno de 4 quilos, e que devia ter entre 8 e 10 meses, e que já tivera seu primeiro cio, pois a sua genitália estava inchada e parecia dolorida. Fiquei feliz, pois ela não cresceria mais, e é muito mais fácil doar cães de porte pequeno. Achei que ela logo arrumaria um dono, pois era pequenininha e bem simpática, apesar de sequer lembrar qualquer raça que eu conheço. Na verdade, ela tinha uma barbicha que lembra muito vagamente um Jack Russel Terrier, Mas ao contrário dessa raça, era toda preta com marcações bege. Era vira-lata pura mesmo...
Eu a trouxe para casa ao final do expediente, tranquei-a no banheiro, para não contaminar meus outros 10 cães, banhei, apliquei remédio contra pulgas e alimentei. Ela parecia bem arisca, mostrava os dentes, e ao mesmo tempo chorava, o rabinho cotó colado no corpo. Mas não chorou nem latiu nem uma só vez durante toda a noite...
No dia seguinte pedi à veterinária que cuida dos meus cães que viesse buscá-la para examina-la, pois havia percebido que ela estava com um corrimento vaginal abundante e muito malcheiroso. Quando voltei do trabalho e liguei para a veterinária para saber o que ela achara da cachorrinha, veio o primeiro baque: aquele corrimento provinha de uma infecção no útero, provavelmente piometra, uma doença que não responde bem a tratamentos com antibióticos, e que pede a cirurgia para retirada de útero e ovários. Como eu já pretendia castra-la, de qualquer maneira, esse não seria o maior problema. O problema é que a piometra é uma doença que mata o animal muito rapidamente, e eu gostaria de recupera-la melhor antes de submete-la a uma cirurgia. Ela não tinha sido desverminada, vacinada, nada, e o risco de morte na cirurgia quando o animal está debilitado é muito grande.
A veterinária a encaminhou para outra profissional, que tem uma clínica maior e mais recursos para trata-la. E aí veio o segundo baque: além da piometra ela tinha câncer. Um tumor de Sticker na vagina, ainda pequeno, mas que cresceria rapidamente sem o tratamento adequado, e que, pior que isso, é transmissível. O Sarcoma de Sticker é transmissível sexualmente, através da relação sexual, apresentando tumores na região genital. Mas também pode ser transmitido através do ato de cheirar ou lamber a genitália, ato social primordial entre os cães, e aí os tumores se iniciam no trato respiratório. Isso significava que ela teria de permanecer trancada no banheiro até estar completamente curada, pois meus cães certamente a cheirariam no momento em que ela saísse dali, e poderiam ser infectados. O tratamento mais indicado era a quimioterapia, e a cirurgia estava descartada até que a quimioterapia terminasse. Ela ainda correria risco de vida em função da piometra, mas não se podia fazer outra coisa. Por se tratar de um cão resgatado das ruas a veterinária fez um preço bem camarada e iniciamos o tratamento com quimioterapia e antibióticos, para controlar a infecção no útero até que pudesse ser operada.
Dei a ela o nome de Amelinha, deixei o banheiro o mais agradável possível para ela, com almofadas e brinquedos, e saía todos os dias para o trabalho muito preocupada e com o coração apertado pelo choro dela, cada vez que eu saia do banheiro e a deixava sozinha...
Ela ia para a clínica uma vez por semana, para a quimio. Seu pelo começou a cair abundantemente, e no local das aplicações a pele necrosou. Mas ela continuava alegre e agitada, com seu latido estridente. Após 6 aplicações de quimioterapia, a veterinária fez um hemograma e decidiu que já estava na hora de opera-la. Assim, em fevereiro de 2009 ela foi operada para retirada do útero, e do tumor de Sticker, que já diminuíra bastante pelo tratamento. Que festa! Ela agora poderia sair do banheiro e ficar com os outros cães!
Quando ela passou a conviver com os outros cães pude observa-la melhor, e comecei a perceber certas características estranhas nela. Ela parecia estranhamente agitada na maior parte do tempo, às vezes latindo para o nada. Além disso, não tinha muito equilíbrio e caía constantemente. E a coisa mais estranha de todas: ela não abanava o rabo. Conversei com a veterinária a respeito disso, pois quando ela ficava no banheiro eu achava que ela tinha uma relação meio que de "amor e ódio" comigo, pois eu cuidava dela, mas a mantinha presa, e ela então tinha reações estranhas, como chorar, lamber e morder, tudo ao mesmo tempo. E quando eu a pegava no colo ela enrijecia o corpo todo e jogava a cabeça para trás, ficando assim, dura, até que eu a pusesse no chão. Imaginei que fosse então o stress de ficar isolada, mas aquilo não passava...
A veterinária fez alguns testes e exames, e chegou à conclusão de que ela tinha um certo grau de retardo mental. Provavelmente em função de seqüelas de uma doença neurológica como cinomose, quando era filhote, ou na mãe, quando estava em gestação. Essa segunda opção era reforçada pelo fato de seu rabo ser bem curto, mas de nascença, o que indica má formação do feto, exceto em raças que tem o rabo curto como característica.
O fato é que ela poderia ficar saudável, mas nunca seria um cão normal. E foi quando eu percebi que não poderia doá-la. Assim, ela entrou para a família.
Ela vive dentro de casa, junto com outras duas femeas de porte pequeno que tenho, uma dachshund micro e uma poodle toy - também resgatada - e é muito feliz. Suas reações melhoraram bastante com o tempo, mas ela continua sendo meio "descontrolada", late demais e às vezes sem razão aparente, não tem equilíbrio, morde quando quer brincar, e cai bastante. Mas já consegue relaxar o corpo quando a pego no colo, dorme a noite inteira, está aprendendo a se coçar sem cair ou se machucar. E o principal, e mais importante... está começando a abanar seu rabinho curtinho. Na primeira vez em que vi um movimento daquela cauda minúscula, lento e sem ritmo, mas indiscutivelmente um sinal de alegria, chorei muito. Seu rabo não fica mais colado ao corpo o tempo todo, e a cada dia que passa ela fica mais tranquila.
Agora, a cada vez que olho para ela procuro aquele movimento quase imperceptível, mas inegável. E sei que fiz a coisa certa quando a tirei das ruas. A minha "Amelinha Doidinha" vai sempre precisar de cuidados especiais, medicamentos que fortalecem seu sistema nervoso, mas vai ter a melhor vida que eu puder proporcionar. Pois ela é excepcional, mas excepcionalmente importante na nossa família. E excepcionalmente carinhosa, amorosa, alegre. Uma das razões para eu sorrir e agradecer a Deus todos os dias por meus cães...