05 Janeiro 2011
Negra Li, a linda Nega!!
Aqui em casa quase todo mundo tem nome de músico. Nara Leão, Chico Buarque, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Amelinha, Maysa... A Alana era pra ser Alanis (Morissette), mas acabou ficando Alana mesmo. O Jorge é Seu Jorge, e Nega é a Negra Li. Escaparam dos nomes de músicos o Freddy (podia ser Mercury!), o Diego e o Twix.
A Nega é uma linda mestiça de border collie, tem o pelo sedoso e quase todo preto, porte médio. Eu a resgatei em outubro de 2009, aqui na avenida onde moro, em um ponto de ônibus.
Da primeira vez que a vi senti um aperto muito grande no peito, eu estava esperando o ônibus e ela seguia cada pessoa que passava, olhando para cima, com ar de tristeza, tentando cheirar as pessoas, provavelmente procurando o desgraçado que a "desovou" ali. Ela estava com coleira, e voltava para o ponto de ônibus e deitava ali, com ar de quem está quase desistindo, cada vez que levava um "passa fora" das pessoas. Achei que estava perdida.
Fui para onde tinha de ir (por sinal, era a caminhada de São Francisco, dia 04/10), participei do evento e quando voltei ela continuava no mesmo lugar. Fui em casa, peguei ração, potes, água e voltei para o ponto. Dei comida e água para ela, tirei umas fotos e fui para casa divulgar na net. À noite voltei lá, com mais comida e água, e uma caixa grande de papelão para improvisar uma casinha para ela. Ela não estava no ponto, deixei os potes, a caixa, e fui ao caixa eletrônico, que fica a uns 20 metros do ponto de ônibus. Entrei e saí em menos de 5 minutos, e vi que o pote de ração já tinha sido roubado e o de água derrubado, em menos de 5 minutos!! Como as pessoas são podres, meu Deus!! Bom, procurei por ela, chamei, e uma moça que mora ali perto veio falar comigo, ela também estava à procura da cadela para dar ração. Ela então me contou que a pobrezinha foi jogada para fora de um carro em movimento, e que correu atrás do carro como uma louca, mas não alcançou, claro. Voltou para o ponto e ficou. A moça já estava alimentando ela há 2 dias, mas não tinha lugar em casa para abrigá-la. Estava preocupada, pois a cadela tinha sido atropelada naquela tarde, e estava mancando, e ela não sabia o que fazer pois não tinha dinheiro para leva-la ao veterinário.
Enquanto conversávamos a cadela apareceu. Mancando mesmo, com a coxa direita toda esfolada, ainda mais triste que de manhã. Veio té mim, deixou que eu olhasse a perna ferida, bebeu água, comeu um pouco. Mas engasgava o tempo todo, e acariciando seu pescoço descobri logo o porque: a coleira que ela trazia estava tão apertada que afundava na carne do pescoço, era de couro e estava endurecida, devia estar no pescoço dela há muito tempo. Não havia espaço nem para puxar a ponta e soltá-la! A moça trouxe uma tesoura e depois de um bocado de esforço nosso e paciência da cadela, conseguimos cortar a maldita coleira. Que alívio!! Ela até ficou com a carinha mais feliz, devia estar sofrendo tanto, quase enforcada daquele jeito! O sulco que ficou no pescoço cabia um dedo, e demorou alguns meses para desaparecer. Até hoje ela tem uma marca leve no pescoço...
Enquanto estávamos ali parados conversando, tentando pensar num meio de ajudar a coitadinha, ela resolveu correr atrás de um carro. Atravessou a avenida como uma louca, e um outro carro parou a centímetros dela. Percebi que ela não sabia andar na rua, morreria muito rápido se ficasse ali sozinha. Qual a solução? Mais uma vez ignorar a razão que gritava para que eu não fizesse isso, não tinha espaço nem condições... O Rodrigo, que estava comigo, a pegou no colo, e trouxemos para casa. Ela, mesmo grande, apoiou as patas no ombro dele e veio conosco na maior tranquilidade.
Bem, a partir daí começou o problema, Depois do período de "quarentena" no banheiro, tentei soltá-la com meus outros cães. Acontece que tenho umas baixinhas muito folgadas aqui, e a poodle micro Nana avançou na pobre Nega, que até se assustou! Acho que mais pelo absurdo da coisa, ou por medo que a Nana a matasse... engasgada! Enfim, não deu certo. A minha matilha não a aceitou. E ela voltou pro banheiro...
Fiz anúncios, divulguei a Nega durante meses, e nada. Por ser porte grande, e já ter aproximadamente 1 ano e meio, e por ser preta "básica", ninguém a quis. Até que um dia...
Uma amiga estava casada, morava em uma casa legal, com um belo quintal, aqui perto. Seu marido amava cães, já tinha trabalhado e pet shops como tosador e banhista, era aquele tipo de pessoa que atrai qualquer animal, que não tem medo nem dos mais ferozes, e faz amizade instantâneamente com tudo que tiver 4 patas. Bem, ele se apaixonou pela Nega e quis adotá-la. Ele já tinha um pincher, mas aquele quintal podia abrigar vários cães com folga... Fiquei mais que feliz, ela foi pra casa com eles e viveu meses de muita felicidade, apaixonada por seu novo dono, que tratava muito bem dela. Ele ainda adotou o Diego, quando era um bebezinho magrelo, mas essa é a próxima história...
Acontece que a vida da gente muda a todo momento, e infelizmente o ser humano não tem a mesma pureza da alma de um animal. Algumas coisas levam de arrasto vidas e famílias, e o vício das drogas é uma dessas coisas. O rapaz era um ex-viciado, que estava "limpo" há um bom tempo já. Mas teve uma recaída... e depois outra... e depois outra... até que as coisas se tornaram insustentáveis para a esposa dele e a filhinha de 5 anos. Ele saiu de casa em uma quinta-feira e não voltou mais. A mãe dele, já cansada dos problemas do filho, pediu a casa de volta, esvaziou-a das coisas do filho e alugou para outras pessoas. Minha amiga voltou com a filha para a casa da família dela. E os cães?? Bom, o padrasto do rapaz sugeriu logo que eles fossem levados a um sítio de não-sei-quem, que ficava não-sei-aonde, encobrindo que na verdade queria soltá-los na estrada. A amiga não podia levá-los para a casa da família, nem quintal eles tinham. Me deram 3 dias para arrumar lugar para os cães, inclusive o que não tinha sido eu a doar, o pincher, e, é claro, eles acabaram aqui na minha casa. A Nega, rejeitada pela minha matilha, o Diego, já crescido, e o Freddy, o pincher. Tive de fazer uma verdadeira barricada no quintal, dividindo o espaço, e agora eles estão para adoção.
A Nega, abandonada duas vezes por pessoas que deveriam amá-la e protegê-la, está à espera de alguém que queria uma amigona muito fiel e carinhosa, tem mais ou menos 2 anos, linda e dócil, além de ser boa guarda. Espero encontrar alguém que a ame como ela merece. A vida que ela tem aqui hoje não é a ideal, tive de limitar o espaço dela e dos outros, por não se darem bem. Ela fica com o Diego e o Freddy em uma parte separada do quintal, mas com tantos cães eu não posso dar toda a atenção que ela e cada um deles merece. Ela adora passear na rua, é inteligente, poderia ser facilmente adestrada. E eu não perco as esperanças. Quem sabe alguém vê aqui sua foto, se comove com sua história, e resolve dar uma nova chance de felicidade a ela?
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2 comentários:
Di, adoro seus relatos. Estou aguardando os próximos. Dá até vontade de trazer todos prá casa!
Bom, a gente pode dar um jeitinho de mandar uma meia dúzia aí pra Alemanha, é só vc dizer que sim!! rsrsrs...
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